terça-feira, 9 de junho de 2026

A história da Praça do Rink e o amor que resistiu ao tempo

 


A Praça do Rink, no coração de Niterói, não é apenas um pedaço de terra cercado por grades, é um relógio de ponto da memória fluminense. Projetada no século XIX, ela assistiu à transição do Brasil Império para a República, viu os bondes elétricos riscarem o asfalto e testemunhou o vaivém de gerações que ali buscavam o frescor que a Baía de Guanabara soprava no fim de tarde. Mas, acima de tudo, a praça sempre foi um palco. Um palco de cimento e sombra.

Foi ali, naquele quadrilátero histórico que já abrigou um rinque de patinação (daí o nome que o povo apelidou e a história oficial acabou aceitando) que os olhos de Eduardo e Clarice se cruzaram pela primeira vez.

O ano era 1966. A praça ainda guardava a aura dos antigos encontros, mas o mundo lá fora andava em ebulição. Eduardo, um jovem estudante de direito com os bolsos cheios de sonhos e os sapatos gastos de caminhar pela Rua Quinze de Novembro, costumava sentar-se num dos bancos de ferro para ler. Clarice, que vinha de Icaraí para resolver burocracias no centro, parou para tomar uma laranjada. O vento forte daquele outono niteroiense fez voar os papéis que ela carregava. O destino, que adora um clichê bem coreografado, fez com que as folhas pousassem exatamente aos pés de Eduardo.

Ao se abaixarem juntos, as testas quase se chocaram, mas o que bateu forte mesmo foi o peito. Nos meses seguintes, a Praça do Rink virou o porto seguro do casal. Sob as copas das árvores que já tinham visto a cidade mudar de rosto, eles trocaram o primeiro beijo, juraram amor eterno e planejaram uma vida inteira. A praça mudava. O rinque de patinação já tinha virado história, o traçado dos jardins se modernizava, mas o amor deles permanecia intacto, sólido como o chafariz central.

Corta para o presente. Junho de 2026.

A Praça do Rink continua lá, resistindo ao tempo, cercada pelo trânsito caótico e pelos prédios comerciais que engoliram o horizonte de Niterói. E no mesmo banco de ferro, com os corpos agora curvados pelo peso de seis décadas, estão Eduardo e Clarice. Os cabelos brancos dele contrastam com o xale azul que ela insiste em usar para se proteger do vento que ainda sopra da baía.

Eles seguram as mãos, trêmulas, mas firmes no afeto. Olham para os jovens que passam apressados, grudados nas telas dos celulares, ignorando a imponência histórica do lugar onde pisam. Eduardo sorri, olha para Clarice e diz, com a voz embargada pela idade:

— Sessenta anos, meu amor. E parece que foi ontem que juntei seus papéis aqui mesmo. A praça mudou muito, mas nós resistimos a tudo.

Clarice aperta a mão dele, olha fixamente nos seus olhos castanhos e dá um sorriso doce, embora ligeiramente distante.

— É verdade, meu jovem — ela responde, com uma gentileza infinita. — É uma história linda. O senhor deve ter amado muito essa moça. Qual era o nome dela mesmo? Clarice, né? Uma pena que eu não a conheci. Mas obrigada por me deixar sentar aqui no banco com o senhor esta tarde. Meus filhos já devem estar vindo me buscar.

Eduardo engole em seco. O coração, calejado por aquela rotina cruel dos últimos anos, aperta no peito. Ele engole as lágrimas, ajeita o xale azul nos ombros dela e sorri com a mesma ternura de 1966. O Alzheimer tinha levado as memórias de Clarice, mas a Praça do Rink ainda guardava o banco onde, todos os dias, Eduardo se apaixonava por ela pela primeira vez.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A vida, os tombos e o legado do palhaço Carequinha

 


Senhoras e senhores, respeitável público de todas as idades! Acomodem-se na cadeira, peguem a pipoca (sem chorar na manteiga, por favor) e abram o coração. Hoje eu quero contar a história de um homem que transformou o riso em patrimônio nacional.

Se você viveu no Brasil no século passado, ou se apenas teve uma infância minimamente feliz, você conhece o refrão: “E o Palhaço, o que é? É ladrão de mulher!

Essa poesia refinada da molecagem brasileira nasceu com um homem. Senhoras e senhores, com vocês: George Savalla Gomes. Ou, para os íntimos (ou seja, o Brasil inteiro), o eterno Palhaço Carequinha.

O Nascimento no Picadeiro (Literalmente!)

Para entender o Carequinha, a gente precisa entender que ele não escolheu o circo; o circo o escolheu, e de forma bem apressada. George nasceu no dia 18 de julho de 1915, em Rio Bonito, no estado do Rio de Janeiro. E quando eu digo que ele nasceu no circo, não é força de expressão.

A mãe dele, a acrobata Elisa Savalla, começou a sentir as dores do parto... adivinha onde? No meio do picadeiro do Circo Ocidental! O garoto nasceu praticamente dando uma cambalhota e pedindo aplausos. Ou seja, o destino de George já estava selado. Ou ele virava artista de circo, ou seria o maior trauma familiar da história dos Savalla. Ele escolheu a primeira opção.

Aos cinco anos de idade, ele já estava de peruca, maquiagem e sapato gigante. Mas aí você me pergunta: “Alex, por que 'Carequinha' se ele tinha cabelo quando criança?”. Bom, meus amigos, a comédia nasce da ironia. O padrasto dele achou que seria hilário colocar uma peruca que simulava uma calvície em uma criança de cinco anos. O público adorou, o apelido pegou, e George foi condenado a ser careca antes mesmo de ter idade para fazer a barba.

O Sucesso da Lona para a Telinha

O tempo passou, o Carequinha cresceu (só em idade, porque o espírito continuou moleque), e o mundo começou a mudar. Nos anos 1950, surgiu um eletrodoméstico estranho que mudaria a vida de todo mundo. A televisão.

Muitos artistas de circo tiveram medo da TV. Achavam que ela mataria o picadeiro. O Carequinha? O Carequinha olhou para aquela caixa preta e branca e pensou: "Olha só, um picadeiro quadrado onde eu posso falar com o Brasil inteiro sem sair do Rio!".

Em 1951, ele estreou o Circo do Carequinha na TV Tupi. Ele foi o primeiro palhaço a ter um programa de televisão no Brasil.

A Fórmula do Sucesso é que o Carequinha não era aquele palhaço melancólico, europeu, que chora pelos cantos. Não, senhor! Ele era o palhaço brasileiro clássico: enérgico, sarcástico, que pregava peças nos seus assistentes (como os inesquecíveis Fred, Zumbi e Meio-Quilo) e tratava as crianças com uma mistura de carinho e aquela zoeira saudável de tio do pavê.

Ele gravou discos que embalaram gerações, ganhou prêmios, lotou estádios e levou presidentes da República para o picadeiro. O homem era uma força da natureza.

O Tombo e a Resistência

Mas a vida não é só confete e serpentina. Conforme as décadas passavam, a televisão foi ficando mais tecnológica, mais fria, e o espaço para o circo tradicional começou a encolher. O Carequinha viu o seu formato perder espaço na TV.

Dói? Claro que dói. Ver o mundo mudar e esquecer um pouco daquela pureza machuca. Mas o que o Carequinha fez? Chorou as pitangas? Que nada! Ele botou o sapato gigante no pé, pegou seu microfone e voltou para onde tudo começou. As praças, os pequenos circos, o contato olho no olho com o povo. Ele dizia que o palhaço só morre quando o sorriso da criança acaba. E ele não ia deixar esse sorriso acabar tão cedo.

Mesmo idoso, com a saúde já cobrando o preço de oitenta anos de cambalhotas, ele mantinha a vaidade do artista. Não subia ao palco de qualquer jeito. A maquiagem tinha que estar perfeita, o terno impecável. Ele respeitava o público demais para dar menos que 100% de si.

O Último Aplauso

No dia 5 de abril de 2006, em São Gonçalo (RJ), aos 90 anos, George Savalla Gomes descansou. O coração, que bateu no ritmo do bumbo do circo por quase um século, resolveu parar.

Foi um dia triste? Foi. O Brasil perdeu um pedaço da sua inocência. Mas sabe de uma coisa? É impossível pensar no Carequinha e chorar por muito tempo. A imagem que fica é a dele correndo, pulando, fazendo piada com o chulé alheio e nos lembrando de que a vida é curta demais para a gente ser sério o tempo todo.

Ele não foi apenas um palhaço. Ele foi o arquiteto da infância de milhões de brasileiros.

Hoje, em algum lugar no céu, o picadeiro está armado. As estrelas estão brilhando mais forte, o anjo Gabriel está tocando uma marcha de circo no trompete e, com certeza, São Pedro está rindo, enquanto o Carequinha aponta para ele e grita:

“E o Palhaço, o que é?!”

E o céu inteiro responde: “É ladrão de mulher!”

Valeu, Carequinha. Obrigado por nos ensinar a rir.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

A poesia discreta das janelas do 549M

 


Quem viaja nas poltronas estofadas, e tantas vezes gastas, das linhas de ônibus que cruzam as nossas cidades sabe que o transporte público é muito mais do que um meio de deslocamento. É um palco flutuante de histórias cruzadas. Pegar o 549M (Santa Izabel x Niterói) no início da manhã é aceitar o convite para um mergulho na alma da nossa gente.

Enquanto o motor ronca cortando o asfalto, o mundo lá fora vai mudando de tom. Da calmaria de Santa Izabel, passando pelo movimento que começa a pulsar em Alcântara, até desaguar no burburinho do centro de Niterói, a viagem é um mosaico de cenários.

Os mais antigos vão lembrar, com um sorriso de canto de boca, da época em que a pressa dessas frotas rendeu à linha o folclórico apelido de Diabo Verde. O nome, que assustava os desavisados, na verdade guardava a cumplicidade de quem precisava desafiar o relógio para garantir o sustento. Hoje, com o passo mais brando, o verdadeiro espetáculo já não está na velocidade ou na paisagem que corre rápida pela janela, e sim do lado de dentro.

Repare bem no passageiro do banco ao lado. Um jovem estudante, ainda sonolento, segurando a mochila contra o peito como se fosse um escudo contra o cansaço do dia que apenas começa. Logo adiante, a senhora que segura um terço ou folheia um livro com páginas amareladas pelo tempo, alheia ao solavanco dos buracos. Existe uma cumplicidade silenciosa entre essas pessoas. Ninguém se conhece, mas todos compartilham o mesmo destino, o mesmo balanço, a mesma rotina.

O motorista vira personagem quase mítico dessa jornada. Ele conhece os passageiros pelo horário. Sabe quem vai correr desesperado atrás do ônibus na próxima esquina e guarda, na memória o bom dia sincero de quem entra. É um microcosmo de pura humanidade.

Olhar para o 549M, ou para qualquer linha que costura nossos bairros, é entender que a nossa identidade é feita desses pequenos fragmentos de tempo. São Gonçalo e Niterói não se conectam apenas por limites geográficos. Elas se conectam pelos olhares cansados, mas cheios de esperança, de quem faz da janela do ônibus o seu momento de sonhar com o futuro, sem esquecer de onde veio.

Ao final da viagem, quando as portas se abrem no terminal e a multidão se dispersa, fica a certeza que cada um ali leva consigo um pedaço da história do outro. E a cidade, silenciosa, agradece por mais um capítulo escrito sobre rodas.

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