Senhoras e senhores, respeitável público de todas as idades!
Acomodem-se na cadeira, peguem a pipoca (sem chorar na manteiga, por favor) e
abram o coração. Hoje eu quero contar a história de um homem que transformou o
riso em patrimônio nacional.
Se você viveu no Brasil no século passado, ou se apenas teve
uma infância minimamente feliz, você conhece o refrão: “E o Palhaço, o que é? É
ladrão de mulher!
Essa poesia refinada da molecagem brasileira nasceu com um
homem. Senhoras e senhores, com vocês: George Savalla Gomes. Ou, para os
íntimos (ou seja, o Brasil inteiro), o eterno Palhaço Carequinha.
O Nascimento no Picadeiro (Literalmente!)
Para entender o Carequinha, a gente precisa entender que ele
não escolheu o circo; o circo o escolheu, e de forma bem apressada. George
nasceu no dia 18 de julho de 1915, em Rio Bonito, no estado do Rio de Janeiro.
E quando eu digo que ele nasceu no circo, não é força de expressão.
A mãe dele, a acrobata Elisa Savalla, começou a sentir as
dores do parto... adivinha onde? No meio do picadeiro do Circo Ocidental! O
garoto nasceu praticamente dando uma cambalhota e pedindo aplausos. Ou seja, o
destino de George já estava selado. Ou ele virava artista de circo, ou seria o
maior trauma familiar da história dos Savalla. Ele escolheu a primeira opção.
Aos cinco anos de idade, ele já estava de peruca, maquiagem
e sapato gigante. Mas aí você me pergunta: “Alex, por que 'Carequinha' se ele
tinha cabelo quando criança?”. Bom, meus amigos, a comédia nasce da ironia. O
padrasto dele achou que seria hilário colocar uma peruca que simulava uma
calvície em uma criança de cinco anos. O público adorou, o apelido pegou, e
George foi condenado a ser careca antes mesmo de ter idade para fazer a barba.
O Sucesso da Lona para a Telinha
O tempo passou, o Carequinha cresceu (só em idade, porque o
espírito continuou moleque), e o mundo começou a mudar. Nos anos 1950, surgiu
um eletrodoméstico estranho que mudaria a vida de todo mundo. A televisão.
Muitos artistas de circo tiveram medo da TV. Achavam que ela
mataria o picadeiro. O Carequinha? O Carequinha olhou para aquela caixa preta e
branca e pensou: "Olha só, um picadeiro quadrado onde eu posso falar com o
Brasil inteiro sem sair do Rio!".
Em 1951, ele estreou o Circo do Carequinha na TV Tupi. Ele
foi o primeiro palhaço a ter um programa de televisão no Brasil.
A Fórmula do Sucesso é que o Carequinha não era aquele
palhaço melancólico, europeu, que chora pelos cantos. Não, senhor! Ele era o
palhaço brasileiro clássico: enérgico, sarcástico, que pregava peças nos seus
assistentes (como os inesquecíveis Fred, Zumbi e Meio-Quilo) e tratava as
crianças com uma mistura de carinho e aquela zoeira saudável de tio do pavê.
Ele gravou discos que embalaram gerações, ganhou prêmios,
lotou estádios e levou presidentes da República para o picadeiro. O homem era
uma força da natureza.
O Tombo e a Resistência
Mas a vida não é só confete e serpentina. Conforme as
décadas passavam, a televisão foi ficando mais tecnológica, mais fria, e o
espaço para o circo tradicional começou a encolher. O Carequinha viu o seu
formato perder espaço na TV.
Dói? Claro que dói. Ver o mundo mudar e esquecer um pouco
daquela pureza machuca. Mas o que o Carequinha fez? Chorou as pitangas? Que
nada! Ele botou o sapato gigante no pé, pegou seu microfone e voltou para onde
tudo começou. As praças, os pequenos circos, o contato olho no olho com o povo.
Ele dizia que o palhaço só morre quando o sorriso da criança acaba. E ele não
ia deixar esse sorriso acabar tão cedo.
Mesmo idoso, com a saúde já cobrando o preço de oitenta anos
de cambalhotas, ele mantinha a vaidade do artista. Não subia ao palco de
qualquer jeito. A maquiagem tinha que estar perfeita, o terno impecável. Ele
respeitava o público demais para dar menos que 100% de si.
O Último Aplauso
No dia 5 de abril de 2006, em São Gonçalo (RJ), aos 90 anos,
George Savalla Gomes descansou. O coração, que bateu no ritmo do bumbo do circo
por quase um século, resolveu parar.
Foi um dia triste? Foi. O Brasil perdeu um pedaço da sua
inocência. Mas sabe de uma coisa? É impossível pensar no Carequinha e chorar
por muito tempo. A imagem que fica é a dele correndo, pulando, fazendo piada
com o chulé alheio e nos lembrando de que a vida é curta demais para a gente
ser sério o tempo todo.
Ele não foi apenas um palhaço. Ele foi o arquiteto da
infância de milhões de brasileiros.
Hoje, em algum lugar no céu, o picadeiro está armado. As
estrelas estão brilhando mais forte, o anjo Gabriel está tocando uma marcha de
circo no trompete e, com certeza, São Pedro está rindo, enquanto o Carequinha
aponta para ele e grita:
“E o Palhaço, o que é?!”
E o céu inteiro responde: “É ladrão de mulher!”
Valeu, Carequinha. Obrigado por nos ensinar a rir.

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