A Praça do Rink, no coração de Niterói, não é apenas um
pedaço de terra cercado por grades, é um relógio de ponto da memória
fluminense. Projetada no século XIX, ela assistiu à transição do Brasil Império
para a República, viu os bondes elétricos riscarem o asfalto e testemunhou o
vaivém de gerações que ali buscavam o frescor que a Baía de Guanabara soprava
no fim de tarde. Mas, acima de tudo, a praça sempre foi um palco. Um palco de
cimento e sombra.
Foi ali, naquele quadrilátero histórico que já abrigou um
rinque de patinação (daí o nome que o povo apelidou e a história oficial acabou
aceitando) que os olhos de Eduardo e Clarice se cruzaram pela primeira vez.
O ano era 1966. A praça ainda guardava a aura dos antigos
encontros, mas o mundo lá fora andava em ebulição. Eduardo, um jovem estudante
de direito com os bolsos cheios de sonhos e os sapatos gastos de caminhar pela
Rua Quinze de Novembro, costumava sentar-se num dos bancos de ferro para ler.
Clarice, que vinha de Icaraí para resolver burocracias no centro, parou para
tomar uma laranjada. O vento forte daquele outono niteroiense fez voar os
papéis que ela carregava. O destino, que adora um clichê bem coreografado, fez
com que as folhas pousassem exatamente aos pés de Eduardo.
Ao se abaixarem juntos, as testas quase se chocaram, mas o
que bateu forte mesmo foi o peito. Nos meses seguintes, a Praça do Rink virou o
porto seguro do casal. Sob as copas das árvores que já tinham visto a cidade
mudar de rosto, eles trocaram o primeiro beijo, juraram amor eterno e
planejaram uma vida inteira. A praça mudava. O rinque de patinação já tinha
virado história, o traçado dos jardins se modernizava, mas o amor deles
permanecia intacto, sólido como o chafariz central.
Corta para o presente. Junho de 2026.
A Praça do Rink continua lá, resistindo ao tempo, cercada
pelo trânsito caótico e pelos prédios comerciais que engoliram o horizonte de
Niterói. E no mesmo banco de ferro, com os corpos agora curvados pelo peso de
seis décadas, estão Eduardo e Clarice. Os cabelos brancos dele contrastam com o
xale azul que ela insiste em usar para se proteger do vento que ainda sopra da
baía.
Eles seguram as mãos, trêmulas, mas firmes no afeto. Olham
para os jovens que passam apressados, grudados nas telas dos celulares,
ignorando a imponência histórica do lugar onde pisam. Eduardo sorri, olha para
Clarice e diz, com a voz embargada pela idade:
— Sessenta anos, meu amor. E parece que foi ontem que juntei
seus papéis aqui mesmo. A praça mudou muito, mas nós resistimos a tudo.
Clarice aperta a mão dele, olha fixamente nos seus olhos
castanhos e dá um sorriso doce, embora ligeiramente distante.
— É verdade, meu jovem — ela responde, com uma gentileza
infinita. — É uma história linda. O senhor deve ter amado muito essa moça. Qual
era o nome dela mesmo? Clarice, né? Uma pena que eu não a conheci. Mas obrigada
por me deixar sentar aqui no banco com o senhor esta tarde. Meus filhos já
devem estar vindo me buscar.
Eduardo engole em seco. O coração, calejado por aquela
rotina cruel dos últimos anos, aperta no peito. Ele engole as lágrimas, ajeita
o xale azul nos ombros dela e sorri com a mesma ternura de 1966. O Alzheimer
tinha levado as memórias de Clarice, mas a Praça do Rink ainda guardava o banco
onde, todos os dias, Eduardo se apaixonava por ela pela primeira vez.

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