quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

De Braços Abertos Sobre São Gonçalo


Independente do credo o gonçalense tem orgulho de dizer que na sua cidade se faz o maior tapete de sal de Corpus Christi da América latina. Temos orgulho de dizer que anualmente milhões de evangélicos saem nas ruas marchando e cantando para Jesus. Orgulho da coragem de Manoel Avelino de Souza e posteriormente Waldemar Zarro que em um período de perseguição moral aos evangélicos criaram a primeira igreja evangélica da cidade, Primeira Igreja Batista de São Gonçalo. É tão gostoso subir o Monte das Oliveiras em Amendoeira e ser contagiado com a paz que emana daquele lugar. Orgulho de morar em uma cidade onde no inicio do século 20 Zélio Fernandino de Moraes abria a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade em Neves e ali nascia a Umbanda, a única religião 100% brasileira. Que se não fosse o descaso de nossos gestores pela história e nosso patrimônio ainda estaria de pé. 

Uma rua tranquila de paralelepípedo no Barro Vermelho de nome de Heitor Levy também deveria ser orgulho para todos nós gonçalense, mas infelizmente nem todos conhecem a história que rodeia aquele lugar. Quem foi Heitor Levy e o que ele fez por São Gonçalo?

Heitor Silva  da Costa, sentado, e Levy, o terceiro da esquerda para a direita, rodeados por artistas e técnicos franceses: grande rol de colaboradores. Fonte: Veja Rio Abril*
Heitor Levy foi um dos engenheiros responsáveis pela construção do Cristo Redentor e para que o leitor entenda o que São Gonçalo tem a ver com uma das sétimas maravilhas do mundo moderno vou contar uma breve história.

Não existe nada que simbolize mais o Brasil do que a imagem do Cristo Redentor de braços abertos. Talvez por vivenciarmos um mundo cheio de tecnologia não temos a noção exata de quanto foi trabalhosa a construção de um monumento dessa proporção. Antes mesmo da sua inauguração no dia de Nossa Senhora da Aparecida, 12 de outubro de 1931, vários estágios tinham sido alcançados, e o primeiro deles em 1918 - ano do fim da primeira guerra mundial e o mundo clamava por paz-, foi à própria idealização de se construir uma imagem do cristo para comemoração do centenário da Independência do Brasil. Então através de concurso o melhor projeto escolhido foi do engenheiro Heitor da Silva Costa. Pensou-se em um cristo carregando uma cruz em uma mão e um globo na outra, mas uma antena de radiotelefonia no formato de uma cruz já existente em 1922 serviu de inspiração para construção de um cristo de braços abertos. 
Cristo segurando o Globo
Antena de radiotelefonia no Corcovado em 1922.



       Ao contrário de que muitos pensam o Cristo não foi presente de nenhuma nação ao Brasil, foi sim esforço e suor de milhares de católicos que ajudaram com mil reis cada através de campanha em todo o Brasil. Foram 10 anos de arrecadação até somar a quantia necessária para a obra.

Inicialmente foi cogitada a escultura toda em metal como a Estatua da Liberdade, mas Heitor da Silva Costa considerava feio o efeito do cobre a longa distância e principalmente temia que em uma guerra o monumento fosse destruído com intuito de virar artilharia, como aconteceu na Rússia com a Revolução Bolchevique, onde o governo soviético mandou fundir todas as estatuas metálicas de santos para aproveitar o metal.

A obra começou em 1926, sob a responsabilidade do engenheiro Heitor Levy, mas faltava um detalhe. Qual artista escultor seria responsável por dar forma a face e as mãos do cristo. Uma comissão foi enviada a Paris e cogitou-se Auguste Rodin, mas a responsabilidade acabou caindo nas mãos do artista franco-polonês Paul Landowski. Na realização das mãos o artista valeu da ajuda da amiga brasileira poetisa Margarida Lopes de Almeida que ofereceu suas próprias mãos para modelagem das do cristo. A cabeça foi toda feita em moldes de gesso divididos em 50 partes para serem montadas peça por peça aqui no Brasil.

É ai que entra o personagem principal da nossa história, a pessoa quem deu nome a nossa tranquila rua. Heitor Levy era proprietário de uma chácara exatamente nas mediações entre hoje a rua que leva o seu nome e a Siqueira Campos e foi nesse lugar que Levy utilizou os moldes enviados por Landowski para montar e juntar as peças dando forma à face do monumento mais famoso do Brasil. Moradores antigos relatam que o lugar onde ocorreu a montagem é onde hoje está localizado o Colégio Santa Catarina.
Cabeça montada em um teste no sítio de Heitor Levy. Fonte: 
Arquivo CEIPN/livro "Corcovado - A Conquista da Montanha de Deus"
É importante destacar que Heitor Levy estava tão engajado na obra que se mudou de mala e cuia para o corcovado. Era judeu, mas com tanto envolvimento e paixão converteu-se ao catolicismo e um vidrinho colocou o seu nome e o de toda família e o misturou com a massa de concreto do coração da estátua. 

         São Gonçalo é cheia de credos e religiões e ao contrário de muitas cidades no mundo todas se respeitando e convivendo em paz e harmonia. O gonçalense sabe muito bem o que é amar ao próximo como a ti mesmo e quis o destino que fossemos presenteados com um pedacinho da história que marca a construção dessa maravilha do mundo moderno.

Axé, Amém, Inshallah, Maktub, Aleluia, Salam, Shalon, Que Assim Seja São Gonçalo !!!


Referências:

*Ilustração Disponível em:  http://vejario.abril.com.br/edicao-da-semana/autor-cristo-642226.shtml. Acesso em: 01/11/2013.

Texto Publicado dia 02/11/2013 no www.tafulhar.com.br

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Regredindo como Espécie e Evoluindo na Sapucaí

 

Impressionante como a evolução ainda esta bem longe da nossa espécie. Em pleno século XXI ainda vemos acontecimentos onde só veríamos em séculos passados. Eu lamento muito como ser humano e gostaria que só fossem contadas em aulas de história. Estou falando de preconceito, que infelizmente ainda existe em muitos países e infelizmente no nosso também.

Vemos diversos tipos de preconceitos, entre eles o religioso, como o que culminou na morte dos cartunistas do Charlie Hebdo. Esse tipo de preconceito também assistimos de pertinho, na cidade de São Gonçalo, quando a antiga prefeita lavou as mãos na demolição da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, em Neves, berço da umbanda, religião 100% brasileira.

Sem dúvida, o preconceito mais comum é o racial. É incompreensível para minha cabeça saber que uma pessoa trata a outra com diferença, por apenas não ter a mesma cor da pele.   

Eu posso ter nome de gringo e ser branco como farinha de trigo, mas sou negro de alma e tenho muito orgulho de morar em um país onde a contribuição cultural desse povo foi enorme.

Existe um bairro em Niterói que essa contribuição cultural esta bem nítida. É o caso do Cubango, onde o próprio nome indica suas origens. No século XVIII com a proibição do comércio de escravos, Niterói se tornou um entreposto clandestino de venda de escravos que desembarcavam nas praias da região oceânica. Os traficantes usavam Niterói para fugir da fiscalização e faziam da região um lugar de preparo e engorda de escravos para posteriormente serem vendidos. Com isso o surgimento de alguns quilombos era inevitável, pois os traficantes não podiam chamar a atenção das autoridades da capital do império. E assim historiadores relatam o surgimento de um Quilombo no Morro do Cubango, onde a expressão está relacionada à província de “Cuando-Cubango”, onde se presume que esses escravos vieram dessa região da Angola.

Não há nada que represente mais as origens africanas do que o samba. Então no bairro onde aflorou a cultura negra em Niteroi, nasceu também uma popular escola de samba.

Com o fim do Império Serrão, a agremiação reduto dos sambistas das comunidades do bairro, um grupo de sambistas, dentre eles, Ney Ferreira e Carlinhos Manga-Espada criaram em 17 de dezembro de 1959 a escola de samba Acadêmicos do Cubango. Quatro anos depois, em 1964, fazia sua estreia no primeiro grupo do carnaval niteroiense conquistando o vice-campeonato com o enredo “Maurício de Nassau”. Seu primeiro título na elite do carnaval de Niterói foi em 1967 com o enredo “O Brasil pintado por Debret”. Daí por diante só deu a Cubango no carnaval de Niterói, foram sete títulos em dez disputados na década de 1970. Até que nos anos 80 a escola foi convidada para desfilar no Rio de Janeiro e no seu primeiro ano no desfile carioca, a Cubango foi campeã do grupo IV. Em 1992 com enredo “Negro que te quero negro” chegava ao grupo I. 

Ensaios na quadra do Clube Fonseca - década de 60 
Ensaios na quadra do Clube Fonseca - década de 60
Este ano, a Acadêmicos do Cubando desfilará no sábado de carnaval com o enredo “Cubango, a realeza africana de Niterói”. Contando um pouco da sua própria história.

Enquanto não evoluirmos como espécie estarei torcendo pela Acadêmicos do Cubango evoluir na avenida e fazer bonito na Sapucaí.


Fotos da GRES. Acadêmicos do Cubango

Desfile na Amaral Peixoto - década de 70

Inauguração da quadra da escola - década de  60 

Inauguração da quadra da escola - década de  60 

Inauguração da quadra da escola - década de  60 

Inauguração da quadra da escola - década de  60 

Inauguração da quadra da escola - década de  60 

Desfile na Amaral Peixoto - década de 70

Desfile na Amaral Peixoto - década de 70


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Do Futebol para Sapucaí. Dá-lhe Tigre! – Unidos da Porto da Pedra

Eu não entendo, fiz tudo certinho. Pulei as sete ondas na meia-noite do dia primeiro para abrir meus caminhos em 2015. Mas na matéria de futebol e time de coração, o caminho ainda está obstruído. Foram três jogos e três derrotas, sendo que uma delas para o maior rival, o urubu. Mas pensando bem, não tinha nenhum manual na simpatia que dissesse que funcionaria com futebol. Antes fosse botafoguense, pois não me importaria de cair para segunda divisão e ser derrotado no primeiro jogo do ano para o Gonçalense. Perderia para o Gonçalense com muito orgulho, ÔRRA!
Virar casaca não passa pela cabeça, já que paixão futebolística não se explica. Mas pensando bem, se ele não fosse o time do meu coração, seria a minha escola de samba?
Já estou até vendo, um abre alas com um enorme bacalhau e uma comissão de frente de pernas-de-pau coreografadas pelo Coisinha de Jesus. Na ala das baianas, todas com aquelas saias rodadas de lã vermelhas com bordados em preto e lenços coloridos escorregando pelos ombros. Sem faltar o tradicional tamanco de madeira que faria maior sucesso na Sapucaí ecoando durante a paradinha da bateria. E o “puxador” Roberto Leal chamando a galera com o grito de guerra: “Olha o gigante da colina ai, gente! Chora cavaco!”
Pensando bem, não daria muito certo o meu time de coração virar escola de samba. Mas deu muito certo o time de futebol criado no Porto da Pedra virar a minha escola de coração.
Ritmistas da Porto da Pedra desfilando no carnaval de São Gonçalo, nos anos 80.
A Unidos do Porto da Pedra é o único representante do município de São Gonçalo a desfilar no carnaval carioca. A escola de coração da maioria dos gonçalenses nasceu nos anos 70, oriundo de um clube de futebol chamado Unidos do Porto da Pedra Futebol Clube, com uniforme nas cores vermelho e branco que até hoje representam a escola.
Como futebol e samba se completam, em 1975, dois anos depois que se consagrou campeão gonçalense de futebol, nasceu a ideia de criar um bloco de rua. Em 8 de março de 1978, foi oficialmente registrado como um bloco de enredo chamado “Bloco Carnavalesco Porto da Pedra”. Apenas 3 anos depois, em 1981, alcançou a categoria de escola de samba, ficando com o vice-campeonato com o enredo “Mundo Infantil”, no grupo B do carnaval de São Gonçalo. No ano seguinte, já no grupo A, conquistou a primeira vitória como escola de samba com o enredo “No Reino da Fantasia”.
Time de Futebol Unidos do Porto da Pedra Campeão Gonçalense em 1973 - Campo do Cordeiro 

Time de Futebo Unidos do Porto da Pedra ano de 1970 - Campo do Porto da pedra

Em 1985, a agremiação resolveu abandonar a competição e apresentando-se somente em seu bairro durante muito tempo. Só em 1990, conseguiu obter uma quadra de ensaios coberta, ainda que considerada pequena.
Em 1993, recebeu um convite para se apresentar no carnaval carioca no chamado grupo de acesso do Rio de Janeiro, que nessa época ainda desfilava na Avenida Rio Branco.
Componente de ala no Unidos do Porto da Pedra, no desfile de 1994.
Esse ano a Porto da Pedra tem como enredo “Há uma luz que nunca se apaga!” e será a 6ª escola a desfilar na sexta-feira, dia 23 de fevereito de 2015, pela série A do Carnaval Carioca.
Acho que estou exigindo demais da simpatia dos 7 pulinhos. Vocês não acham?  Dizem que o ano só começa depois do carnaval. E se for, realmente verdade boas notícias virão em todos os sentidos, incluindo futebolísticos e carnavalescos. Como na música de Gilberto Gil, andar com fé eu vou. A fé não costuma a falhar.
Então 2015 só vai dar Tigre e Bacalhau!

Texto publicado em 25/01/2014 acesse no www.simsaogoncalo.com.br



sábado, 7 de fevereiro de 2015

Tamoio F.C. e o Glamour dos Antigos Carnavais

  
Estamos na véspera da festa popular mais celebrada no país, o Carnaval.
Houve uma época em que os holofotes eram apontados para São Gonçalo, com a abertura oficial do carnaval carioca. Realizados no Tamoio Futebol Clube, os concursos de fantasias de luxo e originalidade eram transmitidos ao vivo pela TV Globo e, posteriormente, pela TV Manchete. Durante as décadas de 60, 70 e 80, o famoso concurso abria oficialmente, na sexta-feira, o carnaval carioca, com a presença ilustre de grandes artistas como Wilza Carla, Evandro Castro Lima, Flávio Rocha, Clóvis Bornay, entre outros.
Eram famosos também os bailes de carnaval no ginásio do clube, onde os foliões se divertiam sem violência. Eram épocas que não se contratavam seguranças, que ficava a cargo dos próprios sócios. Vestidos de índios, além de cair na folia, também mantinham a ordem no salão. Eram apelidados de “carcarás”.
O quase centenário Tamoio FC foi fundado em 17 de novembro de 1917. Além dos esportes amadores, o clube já contou com equipes de futebol profissional e chegou a empatar com o Clube de Regatas do Flamengo por 3 x 3, em um amistoso realizado em 19 de novembro de 1949. Em 29 de novembro do no ano seguinte, o urubu meteu 9 x 0 no time gonçalense.
Hoje o clube ainda passa por dificuldades. Não é, nem de longe, aquele dos tempos áureos, de salão abarrotado de plumas e paetês. Porém, nós gonçalenses, precisamos perpetuar essa história e não deixar que esse patrimônio da nossa cidade fique apenas na lembrança, como a dos extintos índios que deram nome ao clube: os Tamoios.


Boletins do Clube



Times de Futebol do Tamoio

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Índio quer apito Se não der, pau vai comer!

Manuel Fonseca - Bloco “Inocentes Canibais” diante do busto de Araribóia, na praça Araribóia, Carnaval de 1956. Coleção da Fundação de Arte de Niterói.
É meus amigos, chegou o carnaval. Vamos todos colocar aquela fantasia tão esperada guardada o ano todo e nos divertir assim como fazem os integrantes do bloco “Inocentes Canibais” (Nome bem sugestivo não acham? Todos prontos para comer gente, mas com o álibi da inocência. Se eu fosse um advogado diria que no mínimo um crime culposo, sem intenção de carcar) nesse espetacular registro de Manoel Fonseca no ano de 1956.

Você fica pensando. Assim é mole, pular o carnaval em 1956 é muito mais fácil. A vida era muito melhor, não tínhamos tantos problemas como de hoje. A saúde, a educação e o transporte eram mil maravilhas! Principalmente o transporte, tínhamos um transporte de qualidade com preços justos.  Peraí! Não era bem assim! O nosso amigo de bronze da foto sabe muito bem que por muito tempo os nossos transportes são péssimos e principalmente o  hidroviário, no qual foi testemunho que o bicho pegou ali pertinho dele. Talvez seja um trauma causado por esse acontecimento que o fez morar na frente da igreja São Lourenço dos Índios e esta lá até hoje rezando para que nossos governantes nos tratem com mais respeito.  

Nosso amigo da foto se estabeleceu mesmo na Praça Araribóia em 1914 após um movimento popular no ano anterior chamado Comissão Glorificadora a Araribóia liderado por um tal de Araribóia Cardoso que se dizia descendente do fundador de Niterói. Se o cara era ou não parente direto do famoso índio nunca vamos saber, mas aquele cara de barba espessa, casaco longo e cocar na cabeça surgiu com tudo no cenário político Niteroiense. A partir daí nosso amigo vivenciou as alegrias e as tristezas das pessoas que pegavam todos os dias as barcas para trabalhar. Até brincar o carnaval o nosso amigo brincou, esta ai a foto que não me deixa mentir.

  Barcas à vapor, sec XIX (1835) 

Bem antes em 1835 as barcas à vapor começavam a circulavam realizando o trajeto Rio – Niterói. A Sociedade de Navegação de Nictheroy operava com três barcas que trafegam de hora em hora com a capacidade de 250 passageiros de seis da manha até às seis da tarde. A Sociedade de Navegação de Nictheroy manteve-se soberana até meados do século quando a Companhia Inhomirim entra no circuito obtendo permissão para manter uma linha de transporte regular entre a Capital do Império e Niterói. Mas como diz o ditado popular “Onde Come Um Come Dois” as duas companhias entram num acordo  com o objetivo de contornar a disputa pela concorrência e fundam a Companhia Niterói – Inhomirim. Esse filme nós vemos até hoje, se chama monopólio. E assim a companhia passa a explorar não só o trajeto Rio – Niterói, mas todos os principais portos do fundo da baía. Mas a mais lucrativa é quando estabelece uma carreira para o bairro de botafogo. Na época o lugar de residências de famílias mais ricas. Botafogo passa a ser também o lugar mais procurado para os banhos de mar. Em 1858, a Niterói – Inhomirim já tem 9 barcas fazendo o trajeto Rio – Niterói.

Entra na história no mesmo ano, de 1858, um empresário chamado Cliton Von Tuyl que ganha outra concessão para operacionalização do transporte aquaviário na Guanabara, a mesma carreira  que Niterói- Inhomirim. Cliton não perde tempo e vende aos empresários americanos Thomas Ragney e W. F. Jones a concessão para estabelecimento de barcas à vapor do sistema Ferry. O capital internacional fez com que as barcas do sistema Ferry passassem por cima da concorrência e o mesmo trajeto era feito em menos tempo com mais velocidade e conforto. Isso foi fatal para sobrevivência da Companhia Niterói-Inhomirim que em 1865 suspendeu seus serviços. 
Estação Ferry na Praça XV, em seu aspecto original de 1862 

Mais uma vez vemos o monopólio do serviço aparecer e o céu era o limite para Companhia Ferry. Com o aumento do preço do serviço a companhia expandiu a sua lucratividade a ponto de em 1889 incorporar a Empresa de Obras Públicas do Brasil, dirigira por Manuel Buarque de Macedo, que já prestava serviços públicos em Niterói e São Gonçalo. E assim surgia a Companhia Cantareira & Viação Fluminense.

A Companhia Cantareira era só expansão até o ano de 1908 quando sofre uma nova reestruturação e passa a ser financiada diretamente pela Leopoldina Railway, que monopolizaria não só o transporte de passageiros na Baia de Guanabara como a provisão de infraestrutura física na chamada Orla Oriental da Baia. Só que a companhia não contava com o crescimento de passageiros a partir do crescimento das duas cidades tanto Niterói que segundo o recenseamento de 1920 contava com 86.238 habitantes e sua vizinha São Gonçalo que crescia meteoricamente com 47.019 habitantes segundo a mesma fonte.   O reflexo disso não poderia ser outro senão o descontentamento dos usuários do transporte e em dezembro de 1925 é registrado a primeira das diversas ondas de conflitos da história do transporte aquaviário no Rio de Janeiro. Insatisfeita com o aumento das tarifas das barcas Rio – Niterói a população inicia uma série de depredações às estações “Niterói” e “Gragoatá” e em 1928 devido ao mau funcionamento e atraso de várias barcas ocorre outro episódio de indignação popular e várias barcas e da estação Cantareira são quebradas.

Lembrando que o nosso amigo de bronze, o índio, já fazia guarita ali na praça Araribóia e  observava tudo sem mover uma palha, sem reação, mas também o que ele poderia fazer? Era apenas um busto, ele até tentou o diálogo com os manifestantes, mas no calor do momento ninguém lhe deu a menor pelota.  


Essas manifestações foram pintos perto do que o nosso amigo passou 30 anos depois, essa os deixaram com seus cabelos metálicos em pé. Pela proporção da revolta pensou até que fosse seu fim. Mas nosso amigo manteve a calma, fechou os olhos e rezou para Nossa Senhora dos índios até tudo se acalmar. Foi a chamada “Revolta das Barcas”. 

Estação das barcas, Frota Barreto S.A., Centro, Niterói, A/D.

A concessão era da Frota Barreto S.A que já possuíam barcas que faziam o trajeto em 20 minutos, mas os problemas eram os mesmos de 30 anos. Filas de passageiros cada vez maiores, atrasos constantes nos horários das barcas e insatisfação por parte dos funcionários. No dia 18 de fevereiro de 1969 o dono da Companhia de Navegação Frota Barreto ameaça paralisar as barcas caso não haja o aumento da tarifa ou um maior subsídio do governo. Como o governo nem estava nem ai para as revindicações da empresa em seis de março do mesmo ano o Grupo retira algumas barcas de circulação com o objetivo de pressionar o governo. Para complicar cinco sindicatos de trabalhadores do transporte aquaviário ameaçam entrar em greve. E o Grupo não pagava os salários de março alegando não ter verba. Em 22 de maio de 1959 o tráfego da baía é paralisado devido à greve dos marítimos já que o grupo se recusou a pagar o aumento salarial decretado pelo governo.


Imagine vocês como deve ter sido o sofrimento dos passageiros que esperavam as barcas para ir ao trabalho ou até mesmo voltar para sua casa. O problema fica infinitamente maior quando se pensarmos que na época era o único meio de transporte, hoje simplesmente pegaríamos o 100 e soltaríamos no terminal. Naquela época não existia a ponte que foi inaugurada apenas em 1974.  



Com a greve as estações das barcas amanhecem ocupadas por policias e fuzileiros navais. Essa proteção foi insuficiente e causou mais revolta na multidão de mais de 3 mil pessoas que transpuseram a linha de fogo dos fuzileiros que atiraram com suas metralhadoras para cima da multidão. Mesmo assim invadem as estações das barcas de Niterói ateando fogo, apedrejando e destruindo toda a sua estrutura.

Busto do Araribóia na Igreja São Lourenço dos Índios 
Bom, estamos em 2014 muita coisa se passou e  nosso amigo de bronze já não mora mais ali na Praça Araribóia, se mudou para Igreja São Lourenço dos Índios, e na comemoração do IV centenário de fundação da cidade. Em 1973, o busto do Araribóia foi substituído por um maior e com cara de brabo com os braços cruzados como se tivesse pronto para proteger a cidade ou seria a estação? Sei lá, o mais importante disso tudo que hoje a concessão para o transporte hidroviário esta nas mãos da empresa CCR e nós usuários continuamos brigando pelos mesmos motivos que levaram à revolta.      
  
Quer saber de uma coisa? Esqueça tudo, coloque sua fantasia e vá pular o carnaval. Já passamos por 55 carnavais e não mudamos nada e vai ser mais um que continuaremos como o índio da Praça Araribóia. DE BRAÇOS CRUZADOS. 



Texto publicado em 28/02/2014 acesse no www.tafulhar.com.br



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