domingo, 15 de março de 2015

As duas mortes de Francisco


Posso dizer com todas as consoantes e vogais que sou realmente um cara azarado. Não bastava me tirarem a vida uma semana após completar meus 44 anos na minha querida cidade do Acre, me ocorreu tempos depois de sepultado, ser novamente morto lá no estado de Rio de Janeiro em uma cidade chamada São Gonçalo.

Para que o leitor me conheça melhor vou contar um pouco da minha vida...

Meu nome de batismo é Francisco Alves Mendes Filho, mas pode me chamar de Chico. Fui intimo para milhares de pessoas, porque não ser intimo para você amigo leitor.
Nasci no Acre. Brasileiro e me orgulho disso, afinal como diz o dito popular não desisto nunca, e sempre foi assim até a hora da minha morte. Poderia ter nascido boliviano, já que até o século XX o Acre pertencia à Bolívia e graças a luta dos migrantes nordestinos brasileiros de grande maioria cearense, incluindo com muito orgulho meus pais que chegaram para tentar a vida como seringueiros, esse pedacinho de terra passou ao Brasil através do Tratado de Petrópolis intermediado pelo então ministro do exterior Barão do Rio Branco. Afirmou-se ali que por 2 milhões de libras esterlinas mais uma parte do território do estado do Mato Grosso o Brasil ficaria de vez com o Acre. Mas como o assunto não é a minha cidade natal e sim a minha vida e como acabei morto por duas vezes vou continuar a minha estória.


Minha vida não foi fácil, quando criança me embrenhava na mata para acompanhar meu pai. Ele era um grande homem e um excelente profissional e com a dedicação de um professor me passava cada detalhe sobre o oficio de seringueiro. Olhava para ele com uma ternura e não saia da minha cabeça que quando crescesse seria igualzinho a ele.

Campesinos bolivianos unidos na Revolução Nacional de 1952
Não tive oportunidade de me alfabetizar como uma criança normal de seis ou sete anos. Não tínhamos escolas e os donos de terras não tinham o menor interesse de cria-las, pois quanto menos estudo, mais dependentes ficamos. Com isso só aprendi mesmo a ler quando completei os meus 20 anos. Essa conquista só foi possível com a ajuda de um grande amigo, Euclides Távola que não só me ensinou a ler e a escrever, mas me proporcionou o meu interesse pelo destino do planeta e da humanidade. Um militante comunista que participou ativamente no levante comunista de 1935 em Fortaleza e ainda na Revolução de 1952 na Bolívia. Nunca mais veria em vida desde o golpe militar de 1964, mas aquele homem mudou a concepção da minha vida e a educação passou a ser minha obsessão, queria que todos os companheiros de trabalho aprendessem a ler e a escrever para não serem roubados nas contas do patrão. Cem homens sem instrução fazem uma rebelião. Um homem instruído é o começo de um movimento.

Minha liderança aflorou mesmo aos meus 31 anos de idade quando cheguei a secretário dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, presidido por Wilson Pinheiro, grande responsável pela minha veia ativista. Comecei a participar intensamente das lutas dos meus companheiros seringueiros para impedir o desmatamento da Amazônia. A união sempre fez a força e cada companheiro contribuía fielmente na causa. Éramos uma só família que de mãos dadas impedíamos as maquinas de destruir nossa floresta. Homens, mulheres, crianças e até vovozinhos davam suas vidas pela floresta, chamávamos de “EMPATES”. A floresta sempre foi a nossa sobrevivência e de lá ganhamos nosso pão de cada dia.


Em 1985 o nosso movimento definitivamente criava corpo e fizemos o primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros. Criamos o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e uma proposta que garantia defender aos interesses e direitos dos habitantes da floresta por meio da criação de reservas extrativistas, a “União do Povo da Floresta” que viria ajudar não só a nós seringueiros, mas indígenas, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeira de coco babaçu e a população ribeirinha.

Nossa causa chamou a atenção do mundo e membros da ONU nos deram o prazer da visita em nossa Xapuri. Puderam acompanhar de perto a devastação da floresta e a expulsão dos nossos companheiros por projetos financiados por bancos internacionais. Essa visita me encheu ainda mais de coragem e procurei o senado norte-americano para afirmar a denúncia. O financiamento desses projetos foi interrompido e ganhamos essa batalha. Essa coragem me proporcionou vários prêmios internacionais, mas acreditem leitores, no Brasil fui acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o progresso. 

Vê se pode! Eu não luto contra o progresso, precisamos de empregos e desenvolvimento, mas de um jeito que não nos mantenha pobres. Passar por cima da nossa gente nunca, nem morto!
Por falar em morto chego ao momento do texto, em que tenho que falar de como me tiraram a vida. Tenho certeza que essa morte doeu mais no mundo do que em mim mesmo. O leitor nunca teve essa experiência com a morte, não é? Claro, pois se tivesse não estaria passeando por esse texto. Vou te falar meu amigo, é como se fosse alguém desligando um interruptor. De repente tudo se apaga.


Darly Alves da Silva

Já tinha recebido ameaças de morte outras vezes, mas elas aumentaram quando batemos de frente com o fazendeiro Darly Alves da Silva que decidiu desmatar o seringal Cachoeira. O seringal já tinha sido desapropriado para a criação de uma reserva extrativista. Sem pensar duas vezes liderei meu povo e fizemos o “empate” no terreno. Denunciei que estava sendo ameaçado por Darly e um mandato de prisão chegou a ser emitido, mas o malandro fugiu antes do mandato chegar. Dias depois quando saia de casa para tomar meu banho fui surpreendido na porta dos fundos da minha casa com um tiro de escopeta no peito. E ai veio a escuridão.

Minha morte fortaleceu não só a nossa luta pela floresta amazônica, mas meu nome virou sinônimo de proteção ao meio ambiente e biodiversidade. Eu renasci em várias formas de homenagem. Renasci em forma de Institutos, praças, avenidas, escolas, e muitas outras pelo mundo.


Nascia uma praça, a Praça Chico Mendes. Nenhuma família precisou ser desapropriada, o espaço utilizado era justamente o espaço onde passavam os trilhos de ligação para Estação Raul Veiga da saudosa Estrada de Ferro Maricá. Tão importante para economia da cidade e até do Brasil. Nela passava uma grande parte das laranjas que eram exportadas para os gringos.

Mas voltando a praça, foi toda arborizada tornando o lugar bem arejado para as famílias que frequentavam e aproveitando plantando o verde na cidade. Possuía uma quadra onde adolescente podiam praticar seu esporte favorito. Como era bom apreciar aqui de cima a galera do basquete treinando os arremessos. Bem cedinho os vovôs e as vovós utilizavam a quadra para se exercitarem ao som de musica ritmada sobre a orientação de uma linda e sarada persona. Desculpe-me leitor, morri, mas o instinto de homem falou mais alto. Era de ficar de queixo caído admirando as manobras radicais da galera do skate na única pista da cidade. 

A praça era frequentada por várias tribos diferentes e em perfeita Harmonia. Essa harmonia durou exatos 20 anos quando o povo de São Gonçalo elegeu uma prefeita que cismou com a coitada da praça. Queria porque queria que o nome fosse substituído para Praça da Bíblia. Eu não fiquei chateado com o nome, afinal ser substituído pelo livro sagrado é uma honra pra mim, mas aquela senhora de cabelos vermelhos tipo o do Curupíra foi além.


A quadra e a pista de skate sumiram definitivamente e em seus lugares forma colocados estruturas metálicas formando alguma coisa que sinceramente não sei explicar. Bom, vou tentar narrar aos olhos do arquiteto que criou essa maravilha da arte contemporânea. Se Niemeyer desse uma voltinha em São Gonçalo e visse essa obra rasgaria o diploma de tanta raiva. “- Ao adentrar os portões da suntuosa Praça da Bíblia os senhores avistarão um chafariz lindíssimo que representa a água da vida, andando mais um pouco os senhores passarão por uma estrutura metálica com painéis que representam o velho testamento, no final olhando para cima uma grande cúpula que representa o útero que dá a vida.

Continuando encontraremos estruturas metálicas representando o velho testamento e finalmente os portões representa a saída do mundo ocidental”. Água da vida, útero, portões para saída do mundo ocidental? Viajou! Isso lá no Acre tem nome, maconha, muita maconha!!! A realidade de quem vê é uma praça triste com um chafariz que não tem água, uma estrutura metálica que já se encontra enferrujada, painéis que não existem mais, voaram como pipas e portões que nunca foram abertos desde a sua inauguração em dezembro do ano passado. E tudo isso com uma verba de 2 milhões de reais. Com dois milhões de reais eu compraria o Acre todinho para mim.

E essa foi um pedacinho da minha estória e tenho certeza que muitas homenagens terei pela frente e no coração de cada gonçalense estarei presente para sempre.


AQUI JAZ CHICO MENDES EX-SERINGUEIRO, EX- PRAÇA.

Texto publicado em 22 de novembro de 2013 no Tafulhar.com.br.

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